sábado, 20 de outubro de 2012

Reflexões sobre Virginia Woolf através de Auerbach


VIDA FRATURADA

Ricardo Pereira da Silva1

Resumo:

Este ensaio tenta lançar reflexão sobre os problemas levantados a cerca da leitura que Erich Auerbach (em seu ensaio “A Meia-Marrom”) faz de um trecho do romance “To The Lighthouse” de Virginia Woolf. Problemas esses que tem como esteio as crises da modernidade no início do século XX e que condicionam uma vida danificada identificada na personagem Mrs. Ramsey.


Auerbach enfatiza que o trecho, destacado da primeira parte do romance “To the lighthouse” de Virginia Woolf, que apareceu pela primeira vez em 1927, está sediado no contraponto entre impressões subjetivas e objetivas. O leitmotiv do trecho ─ ato de coser uma meia-marrom (urzes) por Mrs. Ramsay, tomando como referência o comprimento da perna de seu caçula James, meia esta que seria dada de presente ao filho de Sorley, guarda do farol ─ denota a insignificância dos elementos externos, pois há um extremo descompasso entre a exterioridade e a reflexão consciente (subjetiva), ou melhor, rememoração consciente. Todo o entrecho destacado dá preponderância às representações que aparecem na consciência de Mrs. Ramsay e de outros personagens que estão fora da cena descrita, além disso, há referência a reflexões de personagens inomináveis, assim como impressões sobre Mrs. Ramsay que podem ser atribuídas à própria escritora.
Auerbach tem a preocupação de elencar as características específicas que constroem os processos modernos de prosa narrativa, constatados no romance de Virginia Woolf. A partir de seu caráter sui generis, pode-se notar que o essencial é que um acontecimento exterior insignificante, libera idéias e fileiras de idéias, que abandonam o seu presente para se movimentarem livremente nas profundezas temporais, ou seja, estas representações não estão vinculadas aos acontecimentos exteriores, entretanto, este novo processo evidenciado no texto de Virginia Woolf não deve ser estreitamente conectado àquela prosa, que se realiza através da preponderância da reflexão da consciência – subjetivismo – unipessoal, mas sim da pluralidade dos sujeitos, ou subjetivismo pluripessoal. Esta peculiaridade estilística também desemboca noutra, que é a forma como o tempo é tratado, quer isto dizer que, o tempo da narração não é empregado para o processo em si, mas para as interrupções, que desencadeiam processos digressivos.
O que é fulcral, no processo moderno de Virginia Woolf, é a intenção de aproximação da realidade autêntica e objetiva, através de muitas impressões subjetivas, a partir de diferentes pessoas, espaços e situações. As digressões esmiuçadas por Auerbach tentam encontrar respostas, por meio dos questionamentos subjetivos das diferentes personagens (Mrs. Ramsay, Mr. Bankes, people e da própria escritora – como faz entender o filólogo), sobre os enigmas advindos do vazio, da falta de sentido na vida, projetada na expressão e sentimento sorumbáticos de Mrs. Ramsay, quando ficou sabendo e, portanto, passou a refletir a respeito da iminência da morte do pai de Marie, a criada suíça. As digressões de Mr. Bankes, das pessoas e da própria Virginia Woolf (que não se coloca como narradora que conhece a personagem, bem como o sentido das ações e relações sociais, dos processos e estruturas de poder, do sentido da história) fundamentam-se também na perscrutação a cerca do mistério que envolve a tristeza da senhora Ramsay, pois, na reflexão dos personagens, não era entendido como alguém tão bela como ela podia ser tão circunspecta; o que pode ser aventado sobre isto é que ninguém sabe nada com certeza, tudo assume a forma de conjecturas, cujos enigmas não são solucionados.
À guisa de compreender este mundo de incertezas, faz-se necessário evocarmos o que Auerbach chama de “processo de dissolução”, ou melhor, a debilidade social do indivíduo, evidenciada pela preponderância das preocupações aos apelos da subjetividade ou interioridade do que ao âmbito externo2, resulta dos acontecimentos que marcam os decênios anteriores e posteriores à Primeira Grande Guerra Mundial3.
No entanto, faz-se necessário um pequeno preâmbulo para esclarecer como esse processo de dissolução foi tomando corpo até desembocar na Primeira Guerra Mundial: a partir do século XVI, houve um alargamento de horizonte do ser humano, através da expansão ultra marítima e da conquista do novo mundo, da Reforma e da mudança de paradigma teocêntrico para o antropocêntrico, corroborado pela ciência que inicia sua trajetória enquanto nova potência dominadora. O século XVI, portanto, encetou o enriquecimento de novas experiências, conhecimentos e pensamentos, além de outras possibilidades de vida, que antes eram gestadas pelo rijo modelo histórico-sociológico do medievo. Pois bem, este processo avança no decurso do século XIX, que foi antecedido e coroado pelas revoluções burguesas e tecnológicas, consolidando a hegemonia do capitalismo através da dominação burguesa, em países como Inglaterra e França. O movimento4 continua e culmina no século XX, neste século todas as forças produtivas, tecnológicas e de dominação chegam à força máxima (Será que o poder do ser humano pode ser contido?), não obstante este ritmo sempre crescente de aceleração violenta, causou uma confusão tanto maior nas diversas sociedades como nos indivíduos. Ora, foi nesse século que as crises se intensificaram e deflagraram várias insurreições revolucionárias ligadas ao movimento socialista, como a Revolução Russa de outubro de 1917, Revolução Alemã de 1918 e 1923, Revolução Chinesa e a Revolução Cubana de 1959, sem nos esquecermos da importantíssima revolta deflagrada na França a partir de maio de 1968, além destas convulsões sociais, também devemos constatar que o início do século XX foi marcado por disputas entre potências colonizadoras, mormente aquelas oriundas do neo-colonialismo do século XIX, além de crises econômicas como o crack da bolsa de New York em 1929. Todo este movimento tem seu desfecho na Primeira e Segunda Guerra Mundiais. Outrossim, todo este processo está diretamente atrelado à nova forma do romance realista moderno, conforme Auerbach:
Nos anos de ao redor e após a Primeira Guerra Mundial, numa Europa demasiado rica em massas de pensamentos e em formas de vida descompensadas, insegura e grávida de desastre, escritores distinguidos pelo instinto e pela inteligência encontram um processo mediante o qual a realidade é dissolvida em múltiplos e multívocos reflexos da consciência (pg.484).

É este complicado processo de dissolução que possibilita enxergar a debilidade social do indivíduo que o romance de Virginia Woolf faz referência, através do esfacelamento da ação exterior em detrimento às impressões subjetivas, à reflexão da consciência e à estratificação do tempo.


A hipertrofia das forças privadas é percebida a partir dos esgotamentos que trazem como marcas do vazio, por exemplo, a incongruência entre a beleza exterior de Mrs. Ramsay (beleza da qual ela própria não tem consciência. Segundo Auerbach, esta constatação é percebida quando se nota a forma como a senhora Ramsay se veste, como são seus atos, seus comportamentos) à sua tristeza patente e latente; tendo como desencadeador externo apenas um movimento insignificante, como o ato de Mrs. Ramsay de levantar a cabeça e observar o estado da mobília da casa. Auerbach pormenoriza como, a partir deste movimento externo simples, é desencadeado um processo complexo de rememoração consciente da própria senhora Ramsay, enfileirando uma série de camadas subjetivas, por conseguinte, Auerbach demonstra que a tonalidade do romance de Virginia Woolf intenta trazer a lume a substância do real a partir de um ato advindo do acaso, justamente porque não é possível ser dentro de um decurso exterior integral, sobretudo porque este decurso é marcado pelo processo de dissolução, que tem como signo o declínio da “experiência transmitida” (Erfahrung5) pela contínua presença da “experiência vivenciada” (Erlebnis6) mediada pela concretude de uma vida danificada, comprovada pelo vazio e falta de sentido, evidentes em Mrs. Ramsay que, por sua vez, são oriundos das crises da modernidade que arrebataram os indivíduos. Crises que nos deixaram como herança um sentimento de não identidade e de não reconhecimento ao que é comum, deixando os indivíduos perdidos ante a complexidade da vida moderna que lhes dá solavancos através de rápidas e abruptas mudanças.
É devido a crise da modernidade, que os autores do processo moderno (romance moderno) mudam o centro de gravidade, porque este movimento reflete um deslocamento da confiança, isto é, confere-se menos importância aos grandes pontos cruciais externos e aos grandes golpes do destino. Aqui, nota-se a hipertrofia das forças públicas, peremptoriamente pela simples razão de que as forças públicas (externas) desencadearam a Primeira Guerra Mundial e, portanto, o extermínio de milhões de seres humanos, este é o ponto que se encontra a raiz do novo método levado a cabo por Virginia Woolf, que se baseia na confiança de que, no decurso vital escolhido ao acaso, em qualquer instante, está contida a substância toda do destino e que nele pode ser tornado representável, procura-se a ordem e a interpretação da vida que surge dela própria, portanto, recusa-se representar a história das suas personagens com pretensão a integridade exterior, sob a conservação do decurso cronológico, precisamente, ainda segundo Auerbach, porque o instante qualquer é relativamente independente das ordens discutidas e vacilantes pelas quais os homens lutam e se desesperam. Logo, o romance de Virgínia Woolf reflete a dissolução do senso imanente de vida, é a busca do senso das coisas, das ações e relações sociais que o romancista ira efetivar em cada novo romance.

Bibliografia:

AUERBACH, Erich. “A Meia Marrom”. In:____________. Mimesis. Perspectiva: Editora da Universidade de São Paulo, 1971. Pg.459-485.
1 Graduando em Ciências Sociais. UNESP – Universidade Estadual Paulista. Faculdade de Ciências e Letras. Araraquara – SP – Brasil. 14800-901 - thanatos_ricardo@hotmail.com
2 Hodiernamente notamos que ocorre, ou melhor, a indústria cultural impingi, a exacerbação do culto à beleza externa, claro que acicatado pelo hedonismo triunfante, marca inexorável do fundamentalismo do capitalismo, isto é, o consumismo.
3 Vale mencionar as peculiaridades, constatadas no processo moderno da prosa narrativa, percebidas no romance realista do período entre guerras: a) Representação consciente pluripessoal; b) Estratificação temporal; c) Relaxamento da conexão com os acontecimentos externos; d) Mudança da posição da qual se relata. Virginia Woolf se atém a acontecimentos pequenos, insignificantes, escolhidos ao acaso, ou seja, a dimensão do real está nas pequenas coisas.
4 O conjunto deste movimento é engendrado por problemas sociais, tais como: a destruição das comunidades tradicionais (problema da identidade; das experiências transmitidas; do senso coletivo da vida social; dos vínculos para com a família). O crescente dinamismo e mobilidade social (dialética da destruição e construção; a alteridade da sociedade e dos valores; relativismo; perda de referências, segurança e pertencimento). A fragilidade das idéias e das conquistas sociais (justiça, direito, sociedade, liberdade, igualdade, democracia). O contínuo processo material e o sempre possível retrocesso moral e político. As guerras mundiais e as crises econômicas e políticas (a hipertrofia do Estado e da burguesia industrial e financeira).
5 Segundo Walter Benjamin, “Erfahrung” é a experiência transmitida, que se perpetua através da narrativa de uma geração para a outra. Ela seria típica das sociedades tradicionais, assentada no sentido comum da vontade substancial compartilhada pelos membros da comunidade
6 “Erlebnis” é a experiência vivenciada, vivida de forma individual (ela é marcada pela fragilidade, efemeridade e volatilidade). Ela é típica da modernidade, da vida urbana. Para Benjamin, a modernidade é caracterizada pelo declínio da “Erfahrung” e pela contínua presença da” Erlebnis”.


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