VIDA
FRATURADA
Ricardo Pereira da
Silva1
Resumo:
Este ensaio
tenta lançar reflexão sobre os problemas levantados a cerca da
leitura que Erich Auerbach (em seu ensaio “A
Meia-Marrom”) faz de um trecho do romance
“To The Lighthouse”
de Virginia Woolf. Problemas esses que tem como esteio as crises da
modernidade no início do século XX e que condicionam uma vida
danificada identificada na personagem Mrs. Ramsey.
Auerbach enfatiza que o trecho,
destacado da primeira parte do romance “To
the lighthouse” de
Virginia Woolf, que apareceu pela primeira vez em 1927, está sediado
no contraponto entre impressões subjetivas e objetivas. O leitmotiv
do trecho
─ ato de coser uma
meia-marrom (urzes) por Mrs. Ramsay, tomando como referência o
comprimento da perna de seu caçula James, meia esta que seria dada
de presente ao filho de Sorley, guarda do farol ─ denota a
insignificância dos elementos externos, pois há um extremo
descompasso entre a exterioridade e a reflexão consciente
(subjetiva), ou melhor, rememoração consciente. Todo o entrecho
destacado dá preponderância às representações que aparecem na
consciência de Mrs. Ramsay e de outros personagens que estão fora
da cena descrita, além disso, há referência a reflexões de
personagens inomináveis, assim como impressões sobre Mrs. Ramsay
que podem ser atribuídas à própria escritora.
Auerbach
tem a preocupação de elencar as características específicas que
constroem os processos modernos de prosa narrativa, constatados no
romance de Virginia Woolf. A
partir de seu caráter sui
generis, pode-se notar que
o essencial é que um acontecimento exterior insignificante, libera
idéias e fileiras de idéias, que abandonam o seu presente para se
movimentarem livremente nas profundezas temporais, ou seja, estas
representações não estão vinculadas aos acontecimentos
exteriores, entretanto, este novo processo evidenciado no texto de
Virginia Woolf não deve ser estreitamente conectado àquela prosa,
que se realiza através da preponderância da reflexão da
consciência – subjetivismo – unipessoal, mas sim da pluralidade
dos sujeitos, ou subjetivismo pluripessoal. Esta peculiaridade
estilística também desemboca noutra, que é a forma como o tempo é
tratado, quer isto dizer que, o tempo da narração não é empregado
para o processo em si, mas para as interrupções, que desencadeiam
processos digressivos.
O
que é fulcral, no processo
moderno de Virginia Woolf, é a intenção de aproximação da
realidade autêntica e objetiva, através de muitas impressões
subjetivas, a partir de diferentes pessoas, espaços e situações.
As digressões esmiuçadas por Auerbach tentam encontrar respostas,
por meio dos questionamentos subjetivos das diferentes personagens
(Mrs. Ramsay, Mr. Bankes, people e da própria escritora – como faz
entender o filólogo), sobre os enigmas advindos do vazio, da falta
de sentido na vida, projetada na expressão e sentimento sorumbáticos
de Mrs. Ramsay, quando ficou sabendo e, portanto, passou a refletir a
respeito da iminência da morte do pai de Marie, a criada suíça. As
digressões de Mr. Bankes, das pessoas e da própria Virginia Woolf
(que não se coloca como narradora que conhece a personagem, bem como
o sentido das ações e relações sociais, dos processos e
estruturas de poder, do sentido da história) fundamentam-se também
na perscrutação a cerca do mistério que envolve a tristeza da
senhora Ramsay, pois, na reflexão dos personagens, não era
entendido como alguém tão bela como ela podia ser tão
circunspecta; o que pode ser aventado sobre isto é que ninguém sabe
nada com certeza, tudo assume a forma de conjecturas, cujos enigmas
não são solucionados.
À
guisa de compreender este mundo de incertezas, faz-se necessário
evocarmos o que Auerbach chama de “processo
de dissolução”, ou
melhor, a debilidade social do indivíduo, evidenciada pela
preponderância das preocupações aos apelos da subjetividade ou
interioridade do que ao âmbito externo2,
resulta dos acontecimentos que marcam os decênios anteriores e
posteriores à Primeira Grande Guerra Mundial3.
No
entanto, faz-se necessário um pequeno preâmbulo para esclarecer
como esse processo de dissolução foi tomando corpo até desembocar
na Primeira Guerra Mundial: a partir do século XVI,
houve um alargamento de horizonte do ser humano, através da expansão
ultra marítima e da conquista do novo mundo, da Reforma e da mudança
de paradigma teocêntrico para o antropocêntrico, corroborado pela
ciência que inicia sua trajetória enquanto nova potência
dominadora. O século XVI, portanto, encetou o enriquecimento de
novas experiências,
conhecimentos e pensamentos, além de outras possibilidades de vida,
que antes eram gestadas pelo rijo modelo histórico-sociológico do
medievo. Pois bem, este processo avança no decurso do século XIX,
que foi antecedido e coroado pelas revoluções burguesas e
tecnológicas, consolidando a hegemonia do capitalismo através da
dominação burguesa, em países como Inglaterra e França. O
movimento4
continua e culmina no século XX, neste século todas as forças
produtivas, tecnológicas e de dominação chegam à força máxima
(Será que o poder do ser humano pode ser contido?), não obstante
este ritmo sempre crescente de aceleração violenta, causou uma
confusão tanto maior nas diversas sociedades como nos indivíduos.
Ora, foi nesse século que as crises se intensificaram e deflagraram
várias insurreições revolucionárias ligadas ao movimento
socialista, como a Revolução Russa de outubro de 1917, Revolução
Alemã de 1918 e 1923, Revolução Chinesa e a Revolução Cubana de
1959, sem nos esquecermos da importantíssima revolta deflagrada na
França a partir de maio de 1968, além destas convulsões sociais,
também devemos constatar que o início do século XX foi marcado por
disputas entre potências colonizadoras, mormente aquelas oriundas do
neo-colonialismo do século XIX, além de crises econômicas como o
crack da bolsa de New York em 1929. Todo este movimento tem seu
desfecho na Primeira e Segunda Guerra Mundiais. Outrossim, todo este
processo está diretamente atrelado à nova forma do romance realista
moderno, conforme Auerbach:
Nos
anos de ao redor e após a Primeira Guerra Mundial, numa Europa
demasiado rica em massas de pensamentos e em formas de vida
descompensadas, insegura e grávida de desastre, escritores
distinguidos pelo instinto e pela inteligência encontram um processo
mediante o qual a realidade é dissolvida em múltiplos e multívocos
reflexos da consciência (pg.484).
É
este complicado processo de dissolução que possibilita enxergar a
debilidade social do indivíduo que o romance de Virginia Woolf faz
referência, através do esfacelamento da ação exterior em
detrimento às impressões subjetivas, à reflexão da consciência e
à estratificação do tempo.
A
hipertrofia das forças privadas
é percebida a partir dos esgotamentos que trazem como marcas do
vazio, por exemplo, a incongruência entre a beleza exterior de Mrs.
Ramsay (beleza da qual ela própria não tem consciência. Segundo
Auerbach, esta constatação é percebida quando se nota a forma como
a senhora Ramsay se veste, como são seus atos, seus comportamentos)
à sua tristeza patente e latente; tendo como desencadeador externo
apenas um movimento insignificante, como o ato de Mrs. Ramsay de
levantar a cabeça e observar o estado da mobília da casa. Auerbach
pormenoriza como, a partir deste movimento externo simples, é
desencadeado um processo complexo de rememoração consciente da
própria senhora Ramsay, enfileirando uma série de camadas
subjetivas, por conseguinte, Auerbach demonstra que a tonalidade do
romance de Virginia Woolf intenta trazer a lume a substância do real
a partir de um ato advindo
do acaso, justamente porque
não é possível ser
dentro de um decurso exterior integral, sobretudo porque este decurso
é marcado pelo processo de dissolução, que tem como signo o
declínio da “experiência transmitida” (Erfahrung5)
pela contínua presença da “experiência vivenciada” (Erlebnis6)
mediada pela concretude de uma vida danificada, comprovada pelo vazio
e falta de sentido, evidentes em Mrs. Ramsay que, por sua vez, são
oriundos das crises da modernidade que arrebataram os indivíduos.
Crises que nos deixaram como herança um sentimento de não
identidade e de não reconhecimento ao que é comum,
deixando os indivíduos perdidos ante a complexidade da vida moderna
que lhes dá solavancos através de rápidas e abruptas mudanças.
É
devido a crise da modernidade, que os autores do processo moderno
(romance moderno) mudam o centro de gravidade, porque este movimento
reflete um deslocamento da confiança, isto é, confere-se menos
importância aos grandes pontos cruciais externos e aos grandes
golpes do destino. Aqui, nota-se a hipertrofia das forças públicas,
peremptoriamente pela simples razão de que as forças públicas
(externas) desencadearam a Primeira Guerra Mundial e, portanto, o
extermínio de milhões de seres humanos, este é o ponto que se
encontra a raiz do novo método levado a cabo por Virginia Woolf,
que se baseia na confiança de que, no decurso vital escolhido ao
acaso, em qualquer instante, está contida a substância toda do
destino e que nele pode ser tornado representável, procura-se a
ordem e a interpretação da vida que surge dela própria, portanto,
recusa-se representar a história das suas personagens com pretensão
a integridade exterior, sob a conservação do decurso cronológico,
precisamente, ainda segundo Auerbach, porque o instante qualquer é
relativamente independente das ordens discutidas e vacilantes pelas
quais os homens lutam e se desesperam. Logo, o romance de Virgínia
Woolf reflete a dissolução do senso imanente de vida, é a busca do
senso das coisas, das ações e relações sociais que o romancista
ira efetivar em cada novo romance.
Bibliografia:
AUERBACH,
Erich. “A Meia Marrom”. In:____________. Mimesis.
Perspectiva: Editora da Universidade de São Paulo, 1971.
Pg.459-485.
1
Graduando em Ciências Sociais. UNESP – Universidade Estadual
Paulista. Faculdade de Ciências e Letras. Araraquara – SP –
Brasil. 14800-901 - thanatos_ricardo@hotmail.com
2
Hodiernamente notamos que ocorre, ou melhor, a indústria cultural
impingi, a exacerbação do culto à beleza externa, claro que
acicatado pelo hedonismo triunfante, marca inexorável do
fundamentalismo do capitalismo, isto é, o consumismo.
3
Vale mencionar as peculiaridades, constatadas no processo moderno da
prosa narrativa, percebidas no romance realista do período entre
guerras: a) Representação consciente pluripessoal; b)
Estratificação temporal; c) Relaxamento da conexão com os
acontecimentos externos; d) Mudança da posição da qual se relata.
Virginia Woolf se atém a acontecimentos pequenos, insignificantes,
escolhidos ao acaso, ou seja, a dimensão do real está nas pequenas
coisas.
4
O conjunto deste movimento é engendrado por problemas sociais, tais
como: a destruição das comunidades tradicionais (problema da
identidade; das experiências transmitidas; do senso coletivo da
vida social; dos vínculos para com a família). O crescente
dinamismo e mobilidade social (dialética da destruição e
construção; a alteridade da sociedade e dos valores; relativismo;
perda de referências, segurança e pertencimento). A fragilidade
das idéias e das conquistas sociais (justiça, direito, sociedade,
liberdade, igualdade, democracia). O contínuo processo material e o
sempre possível retrocesso moral e político. As guerras mundiais e
as crises econômicas e políticas (a hipertrofia do Estado e da
burguesia industrial e financeira).
5
Segundo Walter Benjamin, “Erfahrung” é a experiência
transmitida, que se perpetua através da narrativa de uma geração
para a outra. Ela seria típica das sociedades tradicionais,
assentada no sentido comum da vontade substancial compartilhada
pelos membros da comunidade
6
“Erlebnis” é a experiência vivenciada, vivida de forma
individual (ela é marcada pela fragilidade, efemeridade e
volatilidade). Ela é típica da modernidade, da vida urbana. Para
Benjamin, a modernidade é caracterizada pelo declínio da
“Erfahrung” e pela contínua presença da” Erlebnis”.
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